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A guerrilha de Alpiarça
José Relvas chega a Alpiarça
José Relvas “o motor” do 5 de Outubro
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Algumas notas sobre Alpiarça

No principio

O nome de Alpiarça deriva, segundo algumas versões que me parecem pertinentes, de um aglomerado populacional que se instalou no Alto do Castelo, sendo que a palavra Alpiarça seria composta de Alpi+arça, em que Alpi, do latim Alpes (ium), significa o ponto mais alto (donde derivará o termo Alpes-cadeia montanhosa que fica na Europa Central) e arça, que deriva do latim arx (arcis), que significava cidadela, lugar de defesa e refúgio situado na parte mais alta da cidade, lugar elevado e, portanto, Alpiarça era a aldeia que ficava no alto, o que faz algum sentido face às descobertas arqueológicas detectadas nalguns môrros situados na zona dos Patudos. Por esta ordem de ideias, o Alto do Castelo, que é um dos locais onde têm sido encontrados muitos vestígios antigos, terá sido o berço onde nasceu Alpiarça. Esta tese tem alguma lógica como vemos e é defendida pelo historiador Prof. Eurico Henriques, de Almeirim, um entusiasta nestas matérias de história da nossa região. Outras teorias existem, nomeadamente a que refere ser o nome de Alpiarça de origem árabe, assumindo aqui particular relevância o prefixo al que o identifica com aquela origem, tal como Almeirim. Em alguns documentos aparece por vezes a designação de Alpeaça que todavia nunca ganhou muita consistência nem continuidade como referência ao lugar de Alpiarça, pois nas memória paroquiais de 1758 se diz claramente que o lugar “sempre conservou o nome de Alpiarça, nem há memória que tivesse outro”.

Alpiarça está em plena lezíria do Tejo e por isso mesmo rodeada de terras férteis e generosas que a ninguém deixam morrer de fome e de miséria.

Desde tempos remotos aqui se instalaram núcleos populacionais com alguma importância, cujos vestígios vão aparecendo pelos campos que circundam a vila. Exemplos disso são os achados que os arqueólogos, como Philine Kalb, Martin Hock e outros, foram encontrando nas diversas estações paleolíticas, nomeadamente na de Vale Forno, que fica situada no perímetro do actual Parque de Campismo; no Vale da Atela; no Cabeço da Bruxa, situado na Quinta da Gouxa; no Alto do Castelo, também denominado de Castelo de Alpiarça, onde existiu uma antiga povoação anterior à época da romanização; no cabeço da Bruxinha, pequena saliência situada no ponto onde se encontram a Ribeira dos Patudos e a Vala de Alpiarça; no Tanchoal, situada nos terrenos que ficam em frente à Quinta dos Patudos, na encosta de olival e finalmente no Meigão, que fica na vertente do Alto do Castelo que está virada para a Ribeira da Atela.
 
 
Importa também referir que existem estudos reveladores da existência de uma cidade importante nesta zona, anterior à entrada dos Romanos na Lusitânia. Era a cidade de Moron, que surge nas descrições do geógrafo grego Estrabão, e cuja localização não mereceu consenso unãnime dos historiadores. Esta cidade teria sido a base das operações do tribuno romano Décimo Junio Bruto para a conquista da Lusitânia.
 
Várias hipóteses foram colocadas sobre o local onde teria existido este importante aglomerado populacional. O historiador David Lopes advoga a possibilidade de ser a zona de Almeirim como o local definido por Estrabão. Outros localizam-na em Abrantes, ou até em Constância, sendo que a confluência dos rios Tejo e Zêzere parece ser para muitos investigadores, o local que mais se ajusta a essa localização. O Dr. Mendes Correia, nos seus escritos, inclina-se para que a antiga cidade de Moran se situe onde existe hoje a cidade de Santarém, achando que é a que melhor que se identifica com as descrições do geógrafo grego . Interpretações mais recentes, nomeadamente do historiador e arqueólogo Jorge Alarcão, põem a hipótese, entre outras, da cidade de Moron se localizar no Castelo de Alpiarça (Alto do Castelo), conforme podemos constatar na sua obra Portugal Romano , onde refere que “Décimo Caio Bruto sucedeu em 138 a.C. a Quinto Cepião como procônsul da Hispânia Ulterior. O Alentejo estava então dominado e Bruto estabeleceu as suas bases na margem direita do Tejo. Diz Estrabão que fortificou Olisipo e acrescenta que estabeleceu um acampamento em Moron, cidade situada junto ao rio Tejo. Schulten situou Moron em Chão Marcos, na confluência do Zêzere e do Tejo, perto da ilha de Almourol, por supor este último nome derivado de Moron. Subsiste, porém, o problema de identificar Moron, pois talvez o acampamento ficasse perto, mas não exactamente em Moron. Em face dos Chôes de Alpompé, mas na outra margem do Tejo, fica um vasto oppidum, ou acampamento, de cerca de 30 ha., sobranceiro a Alpiarça, que também pode corresponder a Moron” embora a hipótese mais consistente aponte precisamente para os Chões de Alpompé, que fica junto à povoação de Vale de Figueira, numa pequena elevação que ali existe e onde se domina uma grande área da lezíria ribatejana. De qualquer modo, a importância do Alto Castelo parece ser inegável, pelo menos como posto avançado das tropas Lusitanas, pois o mesmo Jorge Alarcão refere na página 349 da sua obra “Portugal das origens à Romanização” que “a partir das suas posições meridionais, que poderiam incluir o acampamento do Alto do Castelo (Alpiarça) e Aritium Praetorium (no concelho de Abrantes), as tropas de Sertório (Lusitanos) atacaram o sul”.
 
Mais certo é, no entanto, que por Alpiarça passava a importante via romana denominada Antonino Pio, que de Lisboa seguia até Mérida, situação que é confirmada pela descoberta, junto à vila, de diversos marcos milenários dedicados ao imperador romano Trajano.
 
Podemos também comprovar por escritos da época, que já no tempo do nosso primeiro rei D. Afonso Henriques, os campos do então Reguengo de Alpiarça eram muito procurados, possivelmente pelo seu grande potencial para a agricultura, havendo notícia que um dos primeiros Alcaides de Santarém, D. Gaião e sua esposa Dª. Ermezenda, possuíam em 1162 uma herdade situada perto de Alpiarça, entre esta povoação e Almeirim, que haviam comprado a Menendes Rutura, pelo preço de 500 morabitinos de ouro, conforme refere a historiadora Maria Ângela da Rocha Beirante, na sua obra “Santarém Medieval”.
 
Existem muitas referências longínquas no tempo que mencionam a povoação de Alpiarça. Não sendo esse o âmbito deste livro, não deixarei de mencionar algumas delas, embora de um modo resumido, para que possam ser aproveitados por algum estudioso que as queira seguir.
 
Encontramos referências a Alpiarça no século XIII, nas Inquirições de D.Dinis (1261-1325), no livro 10, folha 6. No século XIV voltamos a encontrar o nome da povoação, confirmando-se o facto de ser possuidora de terras aráveis e ser habitada, uma vez que aqui se encontram porcos, galinhas e patos, o que pressupõe a existência de população residente. Esta hipótese ganha mais credibilidade ao tomarmos conhecimento de um documento de 1383 referente às terras do Reguengo de Alpiarça, que teve origem numa queixa apresentada ao rei D. Afonso IV (1291-1357) por Pedro Eanes Lobato , o que levou o rei a passar-lhe a seguinte carta:
 
“A quantos esta carta virem faço saber que Pedro Eanes, escrivão da minha dizima na Ribeira de Santarém me disse que tinha uma herdade no Reguengo d`Alpearça a par do moinho de vento no termo dessa vila e que a lavra com seus bois e bestas e que grande parte delas há muito que morrem de fome. E isso é porque as manadas de vacas e de ovelhas e de porcos e doutros gados, muitos doutros lugares, chegam a esse lugar e comem os pães e as ervas do dito Reguengo. Outrossim me disse que os cavaleiros moradores na dita vila de Santarém e outros que aí chegam de fora, mandam tomar no dito Reguengo de Alpiarça, as palhas e as galinhas e os patos e as outras cousas que acham. E que por tudo isto deixa de lavrar a dita herdade e que eu perco muito do meu direito...”
 
Avançando com as nossas pesquisas deparamos com mais notícias em meados do século XV. Datam do tempo de D. Afonso V, que reinou entre 1438 e 1481 e encontramo-las nas “Crónicas de D.João II, da autoria do cronista Garcia de Resende, quando refere que: “Estando D. Afonso V nos Paços de Almeirim e andando a passear no campo, o príncipe se apartou com o cardeal a cavalo e foram passeando a caminho de Santarém, e à ponte D`alpiarça o príncipe mandou ficar todos, e só com o cardeal, e os moços destrybeira adiante afastados, passou a ponte D`alpiarça”.
 
Aparecem depois documentos na Chancelaria do mesmo rei D. Afonso V, nomeadamente a doação das azenhas de Alpiarça a Lopo de Condeixa (livro 36, pág. 208).
 
Na Chancelaria de D.João III (1502-1527) encontramos uma carta de confirmação referente à transação de uma herdade situada em Alpiaça, em nome de Martinho Afonso de Sousa (livro 66, pág. 241).
De igual modo tomamos conhecimento do numeramento de 1527-1532 (Recenseamento) mandado efectuar pelo mesmo D. João III, que refere na sua página 76 vº, relativamente às confrontações da vila de Almeirim que “tem para Santarém até à ponte grande d`Alpiarça um quarto de légua”.
 
Neste mesmo numeramento, na parte respeitante à população, se refere que a aldeia da ponte d`Alpiarça já dispunha de 144 moradores, o que a tornava num dos principais núcleos populacionais do termo de Santarém, de tal maneira importante que passou a dispor de paróquia. Este registo permite-nos concluir, com fortes probabilidades de acertar, que a paróquia foi criada entre 1527 e 1531. Deverá haver documentação sobre a data precisa da formação da paróquia, mas não a conseguimos ainda descobrir.
Na Chancelaria de D.Pedro II (1648-1706), na parte respeitante a ofícios e terras, poderemos encontrar um “alvará de uma casas a D. Sancho de Faro, situadas em Alpiassa (livro 61, pág. 2218)
 
Na Chancelaria de D. João V (1689-1750) tomamos conhecimento de um documento que é “prova de dispensa na idade a António da Costa para servir o oficio de Escrivão no dito lugar (de Alpiarça)”, cujo registo foi efectuado no dia 21 de Fevereiro de 1724 (livro 66, pág. 196).
 
Por sua vez, no reinado de D.João VI (1676-1826), poderemos encontrar documentação variada, nomeadamente um alvará passado à Condessa do Vimieiro, D. Joana, no dia 15 de Fevereiro de 1817, “para continuar a disfrutar esta Herdade, apesar das segundas núpcias”, herdade que ficava em Alpiaça (livro 21, folha 72). Também poderemos aceder a uma carta de 22 de Março de 1814, dirigida a João de Sousa Falcão, abastado agricultor de Alpiarça, sobre a “venda de uma terra no dito campo e quatro diferentes foros na comarca de Santarém”, (Livro 16, pág. 212). Outro documento, desta Chancelaria de D. João V, refere-se à confirmação da doação que Manuel Luís Rabiça fez de umas casas no dito lugar a Constatino Duarte, em 5 de Fevereiro de 1817 (livro 24, folha 64).
 
No Livro das Mercês de D. Maria II (1819-1853) poderemos ler uma carta do Pároco da Igreja de Santo Eustáquio dirigida ao Padre José Evaristo Maldonado. Este documento é datado de 5 de Junho de 1845 (livro 27, folha 42). Neste mesmo livro aparece uma outra carta, esta de Apolinário da Costa Jacob, da Tesouraria da dita Igreja de Santo Eustáquio). Documento datado de 31 de Janeiro de 1853 (livro 41, pág. 157).
 
A quem tiver curiosidade para fazer estas pesquisas, poderemos também indicar o livro do Desembargo do Paço, para a área da Estremadura e Ilhas, onde aparecem outros dados referentes a Alpiarça, como por exemplo “os lavradores dos campos de Alpiarça em 1778, livro 1352, folha 6”; “Moradores e vigário do lugar-1804, livro 1464, folha 1 e “Replantação de vinhas aos moradores do lugar-1779, livro 2110, folha 59”.
Outros documentos importantes poderíamos referir, porque existem mais, mas penso que estes provam que o lugar existe com vida há muito tempo. Acredito que nestes registos se encontrarão matérias interessantes que poderão ajudar a reconstituir a história profunda de Alpiarça, não só em termos do seu povoamento, mas também da sua vivência humana. Será talvez um estudo interessante a fazer por quem tiver bases cientificas para a fazer, o que não é o meu caso.