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Quarta, 13 Agosto 2008 23:36
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José Relvas chega a Alpiarça


Foi só a partir da altura em que José Relvas se fixou em Alpiarça que o Partido Republicano ganhou alguma preponderância na vila, mercê da sua acção, pois anteriormente os monárquicos dominavam os resultados eleitorais, como podemos comprovar pelo que aconteceu nas eleições de 1881. Nesse ano, segundo o jornal Distrito de Santarém “correu aqui (em Alpiarça) a eleição a favor do Conde Sobral da maneira mais satisfatória, concorrendo à urna um subido número de eleitores. Não teve oposição como estava projectado e antes assim, porque era certo a perda da eleição por parte do digno opositor, porque o digníssimo Sr. Conde goza em Alpiarça da maior simpatia. Não podem ficar indiferentes à coadejuvação que empregou para que fosse enviada a esta freguesia pelo Governo de Sua Majestade, a quantia de 600.000 réis para as obras da nova igreja, bem como a promessa de contribuição de uma estrada distrital que ligue esta povoação com a ponte de Santarém.
O Conde Sobral era candidato governamental pelo círculo da Golegã de que Alpiarça fazia parte”.
Devemos acrescentar que, na verdade, o Conde Sobral era uma figura com prestigio e muito conhecida em todo o concelho de Almeirim, a cuja Câmara presidiu em diversos mandatos com executivos que integraram alguns vereadores da freguesia de Alpiarça, como aconteceu em 1896 com a presença de Ricardo Durão, José da Costa Jacob e José Maria Grácio Pagamim.
A vinda do jovem José Relvas para a Quinta dos Patudos alterou por completo o panorama político em Alpiarça. Contava 24 anos quando aqui se fixou apesar de ter sido nomeado em 21 de Julho de 1883 para o cargo de substituto do juiz de Direito da comarca da Golegã, que não chega a exercer em plenitude, pois a gestão das propriedades de seu pai, Carlos Relvas, ocupam-lhe todo o tempo a partir de 1882.
Relvas tomara contacto na Faculdade com gente de novas ideias e novas mentalidades, influenciadas e moldadas pelo espírito de rebeldia e liberdade próprios dos círculos estudantis e, apesar de seu pai ser um habitual frequentador do Paço Real e amigo do rei D. Carlos, isso não o impediu de enveredar por esses caminhos diferentes em termos de pensamento político, passando ele próprio a ser agora um dos maiores entusiastas na difusão dessas novas ideias em toda a zona Ribatejana, cujo objectivo final seria a proclamação da República.

Os “Anos Loucos” da Propaganda Republicana

Os últimos anos do século XIX foram marcados por grandes manifestações contra a realeza em virtude do Ultimatum inglês, um verdadeiro ultraje aos sentimentos patrióticos dos portugueses. Foi a partir desta altura que o Partido Republicano ganhou uma nova dimensão, liderando muitos dos protestos que então se fizeram ouvir contra o rei, além de ter conseguido a proeza de eleger três deputados seus para o Parlamento, – Latino Coelho, Elias Garcia e Manuel de Arriaga.
As manifestações nas grandes cidades ocorriam com uma frequência cada vez maior. Numa delas, que teve lugar em Lisboa, o jornalista de O Século, Heliodoro Salgado, perante a multidão que via à sua frente, perguntava a outro jornalista, militante fervoroso do Partido Republicano, João Chagas de seu nome:
“Então! diante disto o que faz esse Partido Republicano?
O que quer que faça? - Responde João Chagas.
O que quero?...o mesmo que toda a gente que tem alma: a revolução”.

No início do século XX o alvo dos protestos populares, foi não só o rei D. Carlos, mas também João Franco, o chefe de governo por ele nomeado e que, a partir de determinada altura, começou a dirigiu o país em ditadura. Os escândalos começaram a suceder-se com desusada frequência, apanhando a família real nas suas malhas. Primeiro foi o escândalo dos adiantamentos à casa real motivados pelos seus gastos sumptuosos, enquanto a população vivia miserávelmente, depois é o escândalo dos tabacos, do caso Hinton e de muitos outros que geraram um grande sentimento de rejeição à monarquia e de abertura aos ideais republicanos. Nesta altura uma voz se ergueu bem alto contra o ditador João Franco e contra os escândalos que surgiam diáriamente, uma voz que se fazia ouvir a partir de Alpiarça, era a de José Relvas e do seu grupo de indefectíveis seguidores.
José Relvas começa a ser um referencial entre os opositores à monarquia e por isso não terá sido alheio àquilo que sucedeu em Alpiarça na noite de 24 de Maio de 1907 e que era o começo de uma escalada republicana entusiástica na vila. Quem lesse o jornal Correio da Noite de 26 de Maio ficaria ciente que algo se preparava contra a monarquia, e que o centro das atenções teria que se virar para Alpiarça. Dizia o jornal que “um acontecimento de extrema importância social para a freguesia de Alpiarça ocorreu na noite de 24 de Maio de 1907. Durante a referida reunião a assembleia assistente filiou-se em bloco no Partido Republicano”. Era um caso insólito para a época sem dúvida nenhuma. Uma assembleia inteira decide filiar-se num partido. Isto revela convicções profundas, mas acima de tudo revela que existia uma liderança forte na condução do processo. Esta adesão unânime e firme a um partido oposicionista ao ditador que governava Portugal (João Franco), ficaria como imagem de marca da vila de Alpiarça e que iria perdurar pelos anos fora.
Relvas começa a tornar-se notado desde 1901 pelos artigos que encerram criticas contundentes ao governo sobre questões económicas e agrícolas, sobretudo vinícolas, actividade que atravessava um período de grandes dificuldades, provocadas não só por um excesso de produção e consequente baixa de preços do vinho, mas também com as restrições ao plantio de cepas decretado pelo governo de João Franco. Esta crise junta nos mesmos protestos os lavradores, organizados nos seus Sindicatos Agrícolas, dos quais o de Alpiarça era um dos principais no Ribatejo, e os trabalhadores rurais que ainda não tinham organizações de classe que os representassem, no entanto, os problemas destas duas classes sociais cruzavam-se, já que as dificuldades dos primeiros se reflectiam nos segundos. Parece-me, contudo, que a subserviência que então havia entre os trabalhadores e os patrões levava a que estes conseguissem, com facilidade, arrastar aqueles para as suas opções. A grande maioria dos lavradores de Alpiarça tinha aderido à filosofia e ao programa dos Republicanos, pelo que se compreende que influenciassem os seus trabalhadores, o que se tornava muito útil quando se tratava de fazer grandes demonstrações de força e de capacidade de mobilização, como aconteceu nos comícios realizados a partir de 1907, chegando José Relvas a ser acusado de levar os seus trabalhadores a Lisboa para tomarem parte em manifestações contra o Governo.
O “Senhor dos Patudos” não se limitava a protestar e a agitar, apontava os erros do Governo e dava sugestões, que eram autênticos fragmentos de programa de governo em matérias específicas, neste caso agrícolas, o que tornava mais credível, perante a opinião pública, a mensagem do Partido Republicano e a possibilidade de vir a constituir uma alternativa válida para um futuro governo.
À falta de organização, de conhecimento das realidades do país e sobretudo à falta de força política para implementarem medidas que tirassem Portugal do sub-desenvolvimento que o arrastava para um beco sem saída, por parte dos governos que o geriam durante a monarquia, os republicanos replicavam com dados concretos, através de conferências e artigos, proferidos e publicados pelos seus mais prestigiados representantes.
Numa Conferência realizada no Porto em Março de 1910 , Relvas apontava as causas da crise por que passava a economia do país e que já vinham de há longos anos:
“Pode estabelecer-se que as causas essenciais do atraso e da instabilidade da economia nacional são:
- O desequilíbrio das culturas.
- A ausência de pequenas industrias rurais.
- A falta de instrução profissional, o limitado desenvolvimento da associação e a falta de crédito agrícola.
- O regime de propriedade, nas suas complexas relações com a população, com os incultos e com o sistema tributário.
- A má incidência e iníqua distribuição dos impostos directos, e o exagero das taxas dos impostos de consumo.
- A falta de um plano de fomento rural, visando o equilíbrio entre a produção e o consumo de cereais.
- O desleixo a que têm sido votados os meios de corrigir o clima.
- A deficiência de vias comerciais.
- As relações anárquicas entre a metrópole e as colónias”.
Eram estes, entre outros, os males apontados por José Relvas e que conduziam o país para o abismo, originando problemas graves entre a população portuguesa.
A situação social é de tal modo aflitiva nestes primeiros anos do século, que o jornal “O Debate” do dia 19 de Dezembro de 1907 referia que “a crise de falta de trabalho vai tomando grandes proporções. Em Benfica já hontem grande número de trabalhadores exigiam trabalho a um dos mais abastados lavradores daquela terra. Em Almeirim e Alpiarça há bastante gente sem ter que fazer”.
No mesmo dia em que saía a notícia que atrás citámos, o mesmo jornal trazia um artigo assinado por José Relvas em que este se definia como um “verdadeiro democrata” e resumia assim seu pensamento:
“A questão política e a forma de governo da nação é essencial para os verdadeiros democratas que reconhecem a impossibilidade de encontrar na monarquia um regímen apto para a resolução dos mais altos problemas que interessam a uma nação nas suas questões educativas, económicas e financeiras”.
Relvas cimentava o seu prestígio intervindo em conferências para onde era convidado, assinando artigos em diversos jornais, reunindo em sua casa com as figuras cimeiras da oposição, participando em comícios e, sobretudo apresentando alternativas credíveis para os males que enfermavam o país. A sua imagem era já a de um futuro governante.
A Casa dos Patudos passava a ser o ponto de encontro privilegiado daqueles que pretendiam derrubar a monarquia. É o próprio dono da casa quem refere nas suas memórias que a Casa dos Patudos passou a ser a partir de Maio de 1907 “um foco de conspiração” e um local priveligiado onde se traçaram as linhas mestras de combate à monarquia. Aqui se reuniram muitas vezes João Chagas e Afonso Costa e se prepararam os grandes comícios que haveriam de colorir o Ribatejo com as cores republicanas.
Relvas rodeia-se então de um conjunto de pessoas que o acompanham, qual apóstolo difundindo as suas ideias. É o célebre grupo de Alpiarça, que gravitava à sua volta e o elege como fonte principal de inspiração. Fazem parte deste grupo as figuras mais representativas da vila: Ricardo Malhou Durão, em cuja Quinta do Meirinho se realizaram muitas reuniões políticas clandestinas de propaganda republicana que mereceram destaque nas célebres cartas políticas de João Chagas; o Dr. João Maria da Costa, que haveria de ser Governador Civil entre 1913 e 1914 e Senador em 1915; o Dr. Joaquim Romão, reputado clínico; o industrial de panificação Manuel Duarte; os proprietários João Malhou e Guilherme Meira, entre outros, que arrastaram nessa onda anti-ditadura a população da vila, vivendo-se em Alpiarça, entre 1906 e 1910, momentos de grande agitação e fervor republicano. Os Patudos passam então a ser visitados, cada vez com muita frequência, pelas figuras de prôa do Partido Republicano, a que Relvas aderiu formalmente em 13 de Junho de 1907. Ali, como já dissemos e como José Relves referiu nas suas memórias, se discutiram os grandes problemas do país, ali se minaram os alicerces em que assentava a monarquia, sendo que não raras vezes esteve em risco a própria liberdade dos frequentadores da Casa dos Patudos, como refere o jornal O Debate de 13 de Fevereiro de 1908, onde se noticiava que “cá pelo burgosinho também o franquismo tinha deitado a unha e assim é que estariam presos vários republicanos se não fosse o acontecimento de 1 de Fevereiro , republicanos não só de Santarém, como de todo o distrito, especialmente de Alpiarça. Garantimos a veracidade do caso”.
É o próprio José Relvas quem confirma nas suas memórias, os riscos que ele e os seus correligionários correram:
“Logo no dia no 30 de Janeiro a Policia me quis prender, procurando-me no Hotel Europe e nas casas dos meus amigos. Para sair de Lisboa, ao abrigo das violências, fui obrigado a entrar no comboio em Braço de Prata e sair em Santarém pela linha férrea até ao centro da Ribeira. Ao entrar na ponte de Santarém, tive de esconder-me no fundo da carruagem, dando ao fiscal a impressão dum trem vazio. Na minha casa permaneci escondido durante dois dias, pronto a servir-me dum refúgio secreto, que aqui tenho, por ter sido avisado por Augusto Navarro, administrador do concelho de Almeirim, de estar iminente a minha prisão”.
José Relvas não se preocupava apenas com a situação política e económica do país. Ele vivia com igual intensidade os problemas sociais dos mais carenciados, o que leva a que o próprio povo, de condição mais humilde e analfabeto, ganhe por ele uma admiração enorme e, apesar da riqueza que possui, torna-se uma referência para todos, sendo curioso verificar que na contabilidade da Casa dos Patudos, que ele próprio executava, aparece diariamente uma verba destinada a esmolas.
Não é necessário provar que estas preocupações sociais de José Relvas eram verdadeiras e sentidas, pois a obra que nos deixou é de tal maneira grandiosa que ainda hoje está à vista de todos, no entanto, é particularmente interessante dar a conhecer aos leitores, uma proposta que ele próprio apresenta numa sessão de Câmara em Almeirim no dia 21 de Janeiro de 1909, onde revela o seu espírito altruísta, pois, perante a iminência daquela Câmara não ter dinheiro para pagar ao Hospital de Santarém as despesas com o tratamento e hospitalização das pessoas mais carenciadas do concelho, propõe a fundação de um Hospital destinado precisamente àqueles que não tinham meios de pagar o tratamento das suas doenças.
Era do seguinte teor a proposta:
“Atendendo às condições da vida económica das classes trabalhadoras menos favorecidas pela fortuna e considerando que a hospitalização constitui um dos maiores deveres de assistência que pode ser reclamado de quem tem meios suficientes para acudir aos indigentes.
Proponho que seja aberta uma subscrição em cada uma das freguesias do concelho de Almeirim, dirigida por comissões escolhidas nesta sessão, dos quarenta maiores contribuintes.
Proponho mais, que fechadas as subscrições seja verificada e documentada perante uma nova assembleia dos 40 maiores contribuintes, a existência de meios suficientes para a fundação de um Hospital e para a sua manutenção, levando-se em conta o subsídio que a Câmara Municipal possa concorrer para as despesas anuais, não se levando a efeito a minha proposta sem que estejam garantidos os meios necessários.
Proponho mais, que sendo aprovada esta proposta, seja aberta imediatamente uma subscrição nesta assembleia.
E por último, atendendo ao exemplo dado recentemente nas relações da Câmara do Porto com o poder central, proponho que os fundos obtidos pela subscrição sejam propriedade do Hospital e administrados por uma comissão especial em que esteja representada a Câmara Municipal”.
A proposta foi aprovada condicionalmente, pois a Câmara iria tentar primeiro dialogar com a Direcção do Hospital de Santarém para resolver o problema dos pagamentos. Conseguiram chegar a um entendimento, pelo que o Hospital continuou a receber os doentes do concelho sem qualquer problema, inviabilizando assim a proposta apresentada.
A atitude de José Relvas não foi esquecida, pelo que a Câmara de Almeirim “consigna um voto de agradecimento ao Sr. José Relvas pela forma altamente humanitária porque redigiu a sua bem elaborada proposta, o que só revela da sua parte a intenção de prestar socorro às classes desvalidas”.
Esta solidariedade social, que vemos reflectida na proposta apresentada, teria a sua aplicação real e concreta no testamento que mais tarde veio a fazer, onde a sua grande preocupação foi o bem-estar das pessoas mais carenciadas de Alpiarça, concretizada na obra que ainda hoje está ali mesmo ao lado, daquela que foi casa em que viveu, lutou e morreu.

Como temos mostrado, a população de Alpiarça, mercê da personalidade forte deste homem, que tinha tanto de bondoso, como de inteligente, começou a tomar contacto e a absorver as novas doutrinas políticas que irradiavam cada vez com mais intensidade, como raio de sol em Inverno rigoroso. A partir de 1907 o rumo dos acontecimentos precipita-se com uma velocidade espantosa. Aconteceram então grandes comicios que faziam adivinhar vitórias esmagadoras (quase 100% de votação) do Partido Republicano Português sobre os partidos governamentais que gravitavam à volta do rei. Os comícios e as eleições eram normalmente antecedidas de verdadeiras reuniões conspirativas em que se concertavam os últimos pormenores e se acertavam estratégias. Algumas dessas reuniões tiveram lugar, além da Casa dos Patudos, também na Quinta do Meirinho, pertencente a Ricardo Durão e nas arrecadações da casa José Grácio Pagamim, que contaram com a presença de José Relvas, João Chagas, António José de Almeida e Brito Camacho, figuras que iriam marcar a 1ª República.
Era o tempo da chamada propaganda republicana, transbordante de um entusiasmo mais acentuado a partir de 1907, em que a população da vila, sem distinção de classes, navegava no mesmo mar de ideais, cientes de que a monarquia não conseguia resolver os seus problemas mais prementes.
Foi neste mar de insatisfação geral que decorreram por todo Ribatejo os maiores comícios do Partido Republicano, a maioria deles dinamizados pelo grupo de Alpiarça, nomeadamente por José Relvas, Manuel Duarte, José Malhou e o Dr. Joaquim Romão, com este último a ir a todo lado no seu inseparável automóvel que, segundo o jornal O Debate, “ficou famoso na história do Partido Republicano com o apelido glorioso de – automóvel da República”. O entusiasmo era tal que José Relvas e Manuel Duarte chegaram a alugar um comboio para levar a população ribeirinha do Tejo, sobretudo a que habitava na zona de Santarém e Cartaxo, a um comício a Lisboa.
Marcantes e inolvidáveis foram, no entanto, as manifestações realizadas em Alpiarça no dia 13 de Junho de 1907 que fizeram tremer a monarquia, tal as movimentações que originaram e as personalidades que aqui se juntaram. Os jornais, O Mundo, Novidades e Ilustração Portuguesa, fazem grandes coberturas jornalísticas dos comícios. O célebre fotógrafo Benoliel deixa-nos imagens fantásticas de todas as movimentações e das personagens principais. O Ribatejo agitava-se e Alpiarça levantava-se a uma só voz. O título da revista Ilustração Portuguesa sobre os comícios de 1907 reflecte o que se passava nesta terra “A Ferro e Fogo”. Não podia ser mais elucidativo.
O comício de 13 de Junho, como tantos outros, foi organizado pelo Dr. Joaquim Romão e teve como ponto alto, as adesões formais ao Partido Republicano por parte de José Relvas e José Malhou.
Acompanhemos com mais pormenores o que se passou nesse dia, na vila de Alpiarça:
“Estiveram presentes os Drs. João de Meneses, Brito Camacho, João Chagas, acompanhados de jornalistas de Lisboa, que foram conduzidos no automóvel de Guilherme Meira. José Relvas e o Dr. António José de Almeida iam no automóvel do Dr. Joaquim Romão. Noutros carros iam Bernardino Machado e outras individualidades republicanas.
Esperavam o cortejo, ceifeiras usando trajes regionais.
Pétalas de flores caíam sobre os representantes do partido, atiradas pelas ceifeiras e população.
Ricardo Durão e José Malhou fizeram seguir o cortejo a pé a um quilómetro da vila.
José Malhou falou ao povo da vila, das janelas da sua casa.
Distinguem-se neste comício: José Relvas, Dr. Joaquim Romão, Ricardo Durão, António e Guilherme Meira, Dr. João Maria da Costa, José Gomes, Jacinto Falcão, muitos outros agricultores e o povo.
Recebe a vila ilustres figuras como: João Chagas, Dr. Alexandre Braga, Dr. António José de Almeida, Dr. Bernardino Machado e Dr. João de Meneses.
Foi servido um almoço em casa de José Relvas e a recepção foi feita em casa de José Malhou.”
Por sua vez o Século comentava sobre a mesma jornada política:
“Um extenso cortejo de automóveis que transportava os oradores foi recebido entre alas de povo que entusiasticamente os aclamou. Até um quilómetro de Alpiarça viam-se dos dois lados do caminho homens e mulheres do campo, ceifeiras e trabalhadores dos vinhedos próximos, que se abeiravam dos veículos dando vivas calorosos. Era a massa compacta dos manifestantes que se contavam por milhares, agitavam bandeiras republicanas e faziam festejar o seu entusiasmo. De mistura com os nomes dos caudilhos da democracia, ouviam-se incessantes vivas à Republica, delirantemente correspondidos pela multidão. À entrada de Alpiarça o entusiasmo redobrou, os foguetes estralejaram, as mulheres e as crianças lançaram flores e ofereceram ramos com as cores republicanas, agarrando-se aos oradores a pedir-lhes que livrassem o país da ditadura.
Na vila as janelas ostentavam colchas e estavam apinhadas de gente que saudavam vibrantemente a Republica”.
Da varanda da casa de José Malhou falou o Dr. António José de Almeida perante uma multidão que estava ao rubro e que o seus dotes oratórios ainda mais inflamaram
Seguiu-se o almoço em casa de José Relvas, onde este reafirmou o seu apoio incondicional à causa republicana, o que serviu de mote para o discurso do Dr. Bernardino Machado que realçou a importância da adesão do dono do solar dos Patudos.

“Erguer um clamoroso protesto contra a ditadura que envergonha o país” (Discurso de José Relvas em Almeirim)

A comitiva partiu a meio da tarde para Almeirim, para um comício presidido por José Relvas, tendo ele próprio pronunciado o seguinte discurso:
“Falo hoje perante o povo desta localidade de Almeirim em condições diferentes daquelas que se verificaram quando aqui usei da palavra pela última vez. Então tratava-se de reclamar providências para a grave crise vinícola que afecta esta região. Agora trata-se de erguer um clamoroso protesto contra a ditadura que envergonha o país e nos envergonha a todos com os seus processos. Praticamos um acto cívico o qual mostra a nossa repulsa pela forma como está Pátria que é de todos. A ditadura fez mais republicanos em poucos meses do que muitos anos de administração monárquica que suportámos com resignação e demasiada paciência do passado recente”.
Ainda não se tinham apagado as chamas do Verão quente de 1907 em Alpiarça e já se realizavam novas manifestações endurecendo posições contra a ditadura de João Franco. Era uma luta sem tréguas, esta a que os republicanos moviam a uma monarquia cada vez mais desacreditada e, por isso mesmo, mais enfraquecida politicamente. Alpiarça continuava a estar na primeira fila desta luta entre republicanos e monárquicos, não como assistente, mas com um grande poder de intervenção.
Entretanto a organização do Partido Republicano ganhava consistência, tanto a nível local, como regional e nacional. Em Coruche, a Comissão Municipal do Partido Republicano é encabeçada por Mário Augusto de Mendonça, acompanhado por Henrique Guisado, João Patrício, Mário Mendonça, Júlio Mário de Sousa, Folgado Moreno, João da Costa Lopes e Alfredo Horta. Em Almeirim, a Comissão Concelhia era liderada pelo Dr. Guilherme Nunes Godinho; no Cartaxo, por Francisco José Pereira; em Constância, por José Eugénio Nunes Godinho; em Santarém, por Abílio Nobre e em Benavente, pelo Dr. Anselmo Xavier. Entretanto para culminar estas ramificações do Partido Republicano é eleita no dia 8 de Março de 1908 a Comissão Distrital de Santarém que integra os nomes de José Relvas, Dr. Anselmo Xavier, Dr. Guilherme Nunes Godinho, Dr. Ramiro Guedes e Dr. José Montez. José Relvas recebeu muitos e variados apoios para a sua entrada na Comissão, sendo que o apoio mais entusiasta foi enviado por um grupo de liberais republicanos do Cartaxo, cuja comunicação foi lida durante a reunião que elegeu a Comissão.
Vão ser estes os homens, de reputação inquestionável, que no distrito de Santarém darão o maior impulso à causa republicana.

Em Alpiarça
580 Votos para os Republicanos
12 para os Monárquicos

Estes comícios antecederam as eleições para o Parlamento, que ocorreram em 5 de Março de 1908, onde se apresentou o Partido Republicano encabeçado por João Chagas, amigo de José Relvas e hóspede assíduo da casa dos Patudos, onde tinha um quarto sempre à sua espera.
João Chagas surgiu a encabeçar a lista de candidatos em substituição de José Relvas, cujo nome havia sido escolhido, mas da qual se recusara fazer parte, por uma questão de princípios.
Os resultados corresponderam às expectativas alimentadas pelas multidões que, como vimos, assistiam aos comícios. 580 votos na lista de João Chagas, contra os 12 que tiveram os monárquicos, sendo este resultado tanto mais significativo se o compararmos com a votação total do circulo de Santarém onde os monárquicos venceram com 32.000 votos, enquanto que os republicanos tiveram apenas 5070. Foi uma vitória retumbante e esmagadora, no entanto não foi isenta de polémica a votação em Alpiarça, sendo que aqueles resultados foram contestados pelos monárquicos com a argumentação de que a mesa eleitoral se esqueceu de acrescentar a profissão de Chagas.
 
atualizado em Terça, 26 Agosto 2008 22:48